parataxis


A filosofia deixou-se beijar no flerte com a morte

Sopram novos ares e, como tudo que sopra, empurra o velho, mesmo que tido como consagrado. E daí, fica a dor da perda, fica a angústia com o novo, porque incerto, e a saudade do velho, porque habitual: sobra vigiar a verdade.

[humilde homenagem a Balthazar Barbosa Filho (1942-2007)]



Categoria: Angústia
Escrito por Johannes às 19h18
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Talvez nada distinga tão radicalmente as massas modernas das existentes em séculos anteriores do que a perda de fé em um Juízo Final: os piores perderam seu temor e os melhores perderam suas esperanças. Incapazes de viver sem temor e sem esperança, sentem-se atraídas por qualquer esforço que pareça prometer a fabricação humana do Paraíso pelo qual anseiam tanto quanto pelo Inferno de que têm medo. Da mesma forma que as características popularizadas da sociedade de classes de Marx possui uma ridícula semelhança com a Idade Messiânica, assim também a realidade dos campos de concentração em nada se assemelha tanto quanto às imagens medievais do inferno.

Hannah Arendt, As origens do Totalitarismo, p. 579



Categoria: Filosofia
Escrito por Johannes às 15h42
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Em uma interessante ‘primeira aula’ a professora pergunta aos seus alunos: apresentem-se dizendo nome, curso e o que fazem em seus momentos livres.

(os dois primeiros serão suprimidos)

 

- vejo televisão

- passeio no parque

- tomo chimarrão

- faço esportes

- leio literatura

- estudo

- cuido de meus filhos

- ouço música

- vou ao cinema

- toco baixo

- namoro

- vejo filmes, mas não estes comerciais (este tentava salvar-se)

 

E, o mais impressionante foi a resposta da ‘artista’:

 

- Eu, como em meu trabalho eu produzo cultura (subentenda-se, preparo os produtos para vocês consumirem), nas minhas horas vagas, eu bebo.



Categoria: Cultura
Escrito por Johannes às 00h11
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Na busca do eterno retorno

'Sorte de hoje: Seu grande sonho é constituir família' (www.orkut.com)

O orkut sempre nos brinda com o melhor que temos como respostas para nossas angústias: ler isto já é uma angústia. Na vida, assim como na filosofia, é preciso paciência, a paciência do conceito, a experiência da solidão que se faz tempo: tempo de angústia, tempo de solidão, tempo de euforia, tempo de paixão.

Frente a isto, podemos viver como se o amanhã estivesse dado?

Viver assim é a negação do hoje, é a busca pela irrepetibilidade do tempo, a tentativa de romper com o mito de que existe uma verdade para além da própria vida: o eterno medo da circularidade, o eterno medo do retorno.

As palavras se fazem no tempo; a vida também: o retorno é inevitável.



Categoria: Angústia
Escrito por Johannes às 11h36
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Estamos pelo Consolo

A religiosidade de nossos tempos é o consolo – mas qual religião não é consolo? Além disso, quem sabe o pensamento religioso, esse do consolo, não tenha invadido as nossas vidas, de tal maneira que tudo passa a ser consolo – a conversa com os amigos, a busca de um amor, a busca de um sonho, isto é, o querer algo para além da sua própria vida: o conforto de um colo onde se possa chorar a cada vez que nos sentimos culpados por um erro... Não seria suficiente abandonar o sentimento de culpa? Do que que somos culpados?... A religião, um sonho e um amor, quando servem apenas de muleta para nós, é mero consolo... não seria melhor abandonar as muletas e andar a rastejar? Deitar-se ao chão e olhar para o céu, e ver o quanto é belo voar...



Categoria: Angústia
Escrito por Guilherme às 15h19
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Cartas Desesperadas X

Eu sonhava. E, quando sonhava, seu olhar me penetrava. Falava muito, como sempre, falando, e o olhar, penetrando, descobrindo, atento, sorrateiro, estático: de dar medo. De sentir-se seguro para falar o que quiser. De falar por falar... vontade repentina de criar um brusco silêncio: fica a pergunta - para onde iria este olhar. Se ele permanecesse, assim como o sonho cartesiano de erigir as bases firmes e inquestionáveis da ciência, se àquele olhar firme, para longe da verdade universal, (porque verdadeiro em sua contingência), se continuasse fixo, imutável, questionador, sincero, paciente... sua persistência seria a verdade de nós, do nós: um eu em mim refletido no outro, pelo olhar mediado pela fala.

Hegeliano isto, não?



Categoria: Poesia
Escrito por Johannes às 16h44
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Será que existe uma verdade para além do mundo? Uma verdade para além da experiência, uma verdade lógica que, através do diálogo é possível de ser estabelecida? Onde inicia a crença? Onde inicia a vontade? Onde inicia a capacidade, o mérito em alcançar, em acessar este mundo?

A arte nos envia para esse mundo. A arte nos envia para o universo em que mostra o possível, aquilo que poderia ser, o que gostaríamos que fosse, subjetivamente, da parte do nosso Eu, fundido em um Nós.

 

Por hora, me contento em deitar e fingir de morto: supor uma vida para além da vida, um mundo para além do mundo. Se Deus está morto, o mundo é o desmedido no finito e, a arte, a única possibilidade de redenção: a ela me jogo de braços abertos, de mente limpa.



Escrito por Johannes às 20h05
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Um frio cartesiano? Possível? Os dedos estremecem, o corpo tão rígido e a alma vagando sobre si mesma... leve, leve, tão leve quanto a pluma... O pensamento talvez fuja para dentro de si mesmo, é lá que ele pode ser livre, jamais para si... jamais para si... Em mim sou várias partes, nos outros, sou nada, frio, rígido, silencioso... Nada de sonhos, nada... O que digo para mim mesmo é simples, partes, é sempre o mesmo, diferente de tudo, diferente de mim mesmo.

Escrito por Guilherme às 00h40
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Jogar palavras ao vento, gesto dadaísta é denúncia de vida técnica: quer pegar o ônibus, cheque sua agenta; horas -> relógio; comunicação -> telefone, internet; entretenimento -> televisão; entretenimento cult -> santander cultural... para toda escolha, temos uma resposta. Para toda ação, um fim. O que ainda não foi pensado?

 

É possível um mundo sem técnica?

Escrito por Johannes às 12h32
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A razão do mundo não está nas palavras...

"Mas quando eu estava para subir, tendo já me despedido dela mais uma vez, convidei-a para ir comigo até a esquina da Tverskaia. Lá, ela desceu e, quando o trenó já estava começando a andar novamente, puxei de novo sua mão para os meus lábios, no meio da rua. Ficou lá durante muito tempo, acenando. Acenei de volta, do trenó. Primeiro, pareceu-me que ela olhava para trás enquanto andava, depois não a vi mais. Com a enorme mala no colo, chorando pelas ruas já sob a luz do crepúsculo, continuei até a estação ferroviária". (Walter Benjamin)

 

Com a leitura desse pequeno fragmento inicio o meu dia... A dor do gênio é viver em um mundo que não o comporta, que exige uma posição sempre acrítica e, portanto, falsamente estranha. Quando olho os diversos livros que exigem de mim leitura, eu sinto muito medo, pois todos eles me prometem um mundo além do qual eu vivo, de palavras rebuscadas ou jogos de razão, mas nenhuma vida, nenhum sentido - letras frias que nada revelam além delas mesmas... Nesse momento, em que penso a minha vida, em que penso os vários Walter Benjamins que transitam em mim, soluciono o problema do silêncio com "The fool on the hill" dos Beatles - na música eu fujo do mundo que não me comporta e do meu corpo que não me suporta. A razão do mundo não está nas palavras que vivem empoeiradas nas prateleiras da vida, muito menos nas lágrimas que jamais foram derramadas por mim. O gênio talvez seja conciso no olhar, que ao desviar do alvo, já o tem por inteiro... Talvez não chore as suas decepções, pois elas são tão presentes, que chorar é sorrir, e viver é estranhar-se a todo instante; assim, o gênio nasce póstumo, ele está todos os dias de partida, com pesadas malas caminhando direto para alguma estação do seu tempo ou da sua vida... Assim sendo, esse é mais um dos meus dias.

 

(20 de Dezembro 1978)



Categoria: Angústia
Escrito por Guilherme às 21h44
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João Hélio

No artigo Razão e Sensibilidade, Renato Janine Ribeiro tenta se posicionar, enquanto filósofo e homem (comos e fossem coisas distintas) acerca do tão falado assassinato do menino de 6 anos, João Hélio.

Link para o artigo



Categoria: Cultura
Escrito por Johannes às 13h12
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Considerações

Recentemente, em função de atos cada vez mais hediondos que tem se dado no dia a dia, a mídia tem elevado sua voz, discutindo até mesmo seu papel dentro da sociedade brasileira. De fato, são inúmeras as questões, desde que a Indústria cultural se estabeleceu enquanto tal. Contam que, no Ocidente, principalmente após o chamado nascimento do período moderno, as formas de comunicação de massa mais e mais foram ocupando um espaço que parecia encontrar-se vazio. Em minha mente, tenho Diderot e os enciclopedistas que, de porta em porta, legavam conhecimentos filosóficos para armar o mais parvo dos indivíduos contra a escolástica: a religião era o alvo. Ela, como alvo, teria de ser abatido. Trazia a minoridade da razão, o véu que encobria a realidade, mascarava da mente humana a verdade do mundo. Hoje, o alvo é outro mas, a luta, parecida.

Em direção a luta pelo esclarecimento, marcamos nossa herança iluminista. A idéia de que um dia, a humanidade ressurja através da mente esclarecida e que, a própria filosofia chegue a seu fim, já que seu fim é o esclarecimento, se manifesta em atos como o ocorrido pela metade de fevereiro deste corrente ano. A tão falada morte do menino João Hélio, de 6 anos, trouxe para nós o retrato duplo daquilo que somos e do que não gostaríamos de ser.

Existem aqueles que acreditam que através de resoluções legais (tais como redução da maioridade penal, privatização de alguns órgãos de segurança, efetivação da pena de morte, etc) e que, para tanto, fazem valer-se da burocracia do Estado. Buscam reivindicar, através do fato, uma opressão boa: morte aos infratores. Infelizmente, estes se esquecem da dimensão social que é também motor de ação como esta. Leis e instituições não mudam o mundo: quem o faz, são os homens.

O problema é que, em momentos de desespero, o ser humano costuma ter atitudes muito diversas: de uma canonização a uma catarse, do ceticismo a fé, da racionalidade a um estado quase animal de irracionalidade.

Neste caldeirão, estão postos todos os elementos que se dizem fundar nossa sociedade e que, nesse momento, não são capazes de dar uma resposta. Aos desesperados e aos infratores. E isso porque talvez a resposta não exista. Quem será o último a apagar a luz?

Nossa marca da hipocrisia não poderia ser diferente agora. Enquanto alguns oferecem sua face gentilmente para que ela seja dilacerada, outros buscam o instinto destrutivo mostrando que o ser humano não é feito só de razão. Ele também é feito de desespero.



Categoria: Cultura
Escrito por Johannes às 13h07
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A melancolia não tem rosto.

É o vazio incontemplável.

Dor pura, enamorada da angústia.

Palpita os maiores corações: não por amor. Por terror.

 

O cheiro da melancolia é amargo.

 

Meu olhar turvo se perde.

 

O desejo da melancolia, se é que isso existe, está desenhado;

Fundamentado em um céu sem estrelas, encoberto; assim como minha razão:

encoberta e confusa.

 

A música flui no ritmo da angústia.

Sem direção, nem movimento.

O corpo paralisa, sem medo: aterrorizado.

Sem paixão: pura negatividade. (até o caráter destrutivo perece)

Restam farrapos.

 

perdi.

Categoria: Poesia
Escrito por Johannes às 15h43
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A Carne Nada Vale

Fico em casa pensando nas diversas pessoas que estão como eu, achando que, enfim, a Carne Nada Vale... A televisão cheia de "folias" canções para cantar, amores para amar, etc. Não sei bem ao certo, mas sempre tive medo de folias e instintos de destruição coletiva - beber entre amigos até vomitar e cair como um saco de merda, no entanto, parece que isso é real, é fato, é diversão... Estou cada vez mais convicto que a carne nada vale... Mas se eu estiver equivocado, quantos mais estarão? A carne realmente nada vale quando não se há uma vida para viver, quando o passado é presente e o futuro não é nada, felicidade é entregar-se a alguma coisa - contanto que não seja a um pensamento ou uma reflexão sobre a própria vida. O sol que esquenta a nossa alma, diz que algo vale, além da carne estão os nosso sonhos, as nossas buscas, a carne nada vale? Realmente, os próximos passos não são os mais seguros, a vida se encaminha para o triunfo final - o que esperar de uma sociedade que encara a barbárie com naturalidade, que encara a indiferença como a melhor maneira de viver uma vida tranquila, talvez um ideal burguês de felicidade... Nessas bandas, me transformo em um asceta, tenho certeza que a carne nada vale, há algo muito além dos nossos sentidos e das nossas razões... Viva o Carnaval!



Categoria: Angústia
Escrito por Guilherme às 18h21
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Gosto bem fundamentado

            Diante da pergunta que fundamenta um gostar, alguns costumam procurar a resposta alhures e outros, dentro do próprio gostar. De um lado, o gosto é fundamentado por padrões completamente externos ao sujeito, transmitidos ‘como que por osmose’ da sociedade, das categorias transcendentais ou até mesmo de Deus: nesse caso a investigação se calca em uma justificativa externa ao sujeito e ao objeto, se encontra na relação entre eles. Por outro lado, constitui-se uma investigação interna ao gostar ele mesmo: busca-se no objeto ‘que se gosta’ aspectos que o constituem como passivo de gosto, as qualidades são internas ao objeto, ele é gostável.

            É claro, aí poderíamos enfiar tranqüilamente aquela justificação que busca, somente no sujeito gostante aspectos internos a este, dados por uma mutabilidade tão mutável que torna-se impossível a compreensão dessa justificação: a face do relativismo modifica como a água do rio, ao olhar para ele, já não é o mesmo e isso ao infinito ...

            A pergunta pelo ser, difícil de ser respondida, parece perder-se nas rotas da pergunta, ao invés de destruir-se no caminho da resposta.

Categoria: Filosofia
Escrito por Johannes às 19h48
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Algum amor do mundo

A construção subjetiva que temos de um suposto "ser ideal", talvez seja apenas a tentativa de amar a si mesmo através do outro: o amor enquanto reconhecimento de si. Quando não nos reconhecemos mais no outro nos sentimos traídos, o amor acaba, a dor chega; mas o tempo tende a passar, a vida sempre segue o seu rumo, e logo logo estaremos nos reconhecendo em um outro que não sabemos qual - uma nova vida, um novo amor, uma nova disposição. É estranho... Sentimo-nos tristes ao ver a alegria daquele que se ama, queríamos no fundo que ele sofresse tanto quanto nós, e isso é o amor - um pouco de ressentimento. Mesmo assim, com uma dose de estoicismo, deixamos o tempo passar e o sentimento abafar, precisamos odiar, nos sentir injustiçados, sem saber o que fazer, para depois revermos tudo como um bom tempo que passou, depois que o amor passar...


Escrito por Guilherme às 00h02
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Força sempre

para todos os covardes que fogem do combate quando tem seus companheiros de luta abatidos pelos violentos tiros do destino

Os homens escrevem suas histórias, e mentem. De fato, a mentira enquanto tal é constitutiva do conhecimento, do ser humano. E os filósofos sabem disso. Com suas mentiras requitadas, palavras rebuscadas e uma lógica rabiscada, constroem verdadeiros sistemas da mentira.

Assim, nessa sopa de letrinhas filosófica, constituem-se verdadeiros mitos, assim como aquele que busca a verdade acima de tudo e de todos. A lição cristã nos mostra isso, e nos mostra com culpa.

Para aqueles que se perdem, resta o mote 'força sempre', mentiroso porque nele mesmo contém a fraqueza daquele que desiste e a piedade daquele que persiste. Porém, verdadeiro porque a redenção se dá pela força, sempre. Força que revela a mentira, ao mesmo tempo em que a destrói: essa é a nossa provocação.

Força sempre 



Categoria: Angústia
Escrito por Johannes às 22h42
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CULPADOS!

A reflexão sobre a culpa é uma constante em nossa cultura... Dizia um filósofo: primeiro, culpamos a Deus; depois, o destino; a sociedade e, por fim, admitimos. Será que sempre admitimos? E quando erramos e sequer sabemos?

Os filmes sempre apresentam o erro na terceira pessoa. Ali somos os espectadores, os juízes invisíveis que conectamos os fatos e executamos a sentença: ele deve morrer porque matou tantos e este, deve matá-lo porque é justo. A justiça tomada enquanto parâmetro da desigualdade.

O velho provérbio popular deve ser investigado: o que os olhos não vêem, o coração não sente.

 

Embora o sentimento de culpa não exista, ou melhor, o julgamento não exista, assim como em um crime bem cometido, sem testemunhas, resta o juízo da consciência, o juiz interno, aquele do qual delegamos ao invisível, a causalidade infantil que conecta fatos absurdos: o menino roubou maçãs e, um dia depois, tropeçou e caiu do penhasco. Ele cairia se não tivesse roubado? E, mesmo que tenha roubado, o fato dele cair é causado pelo seu roubo? A esta resposta, os psicólogos detectam a consciência infantil, a minoridade da razão em ação, o período teológico, nas palavras de Comte.

Uma traição, ela diminui se o traído não sabe? E, se ele sabe, sou mais culpado? Daí, o que podemos extrair é que, os fatos no mundo não existem sem sujeitos. Isto sim é cartesiano: o objeto só existe para um sujeito pensante. Ou seja, o erro só existe para um sujeito que pensa e duvida, para um sujeito que julga.

 

A lição cristã cabe aqui? É preciso ver para crer. É preciso ver para existir. É preciso que o fato seja público para que ele seja julgado. Se eu sou o último homem do mundo, serei impune? Erro o quanto quero e nada me impede? Na verdade, o que me impede de errar? E o que me justifica algo superior, exterior, que execute a justiça. Que apresente a justiça verdadeira para os homens?

 

Ainda cremos nisso. E enquanto cremos nisso, as máximas cristãs ainda existem.

 

Como última análise, vale lembrar a justificativa última de Platão, em nome de Sócrates no diálogo Górgias.

Frente ao ceticismo de Cálicres, frente a sua intolerância para com as justificativas socráticas acerca da necessidade da filosofia enquanto busca da verdade em oposição à sofística enquanto prática da oratória e do convencimento, frente a isso Cálicles diz não mais se interessar pelo que Sócrates pronuncia. Sócrates justifica então a filosofia enquanto a busca pela verdade, enquanto aquilo que não engana os homens, aquilo que não mascara a realidade e os torna infelizes: enquanto a busca pela verdadeira felicidade, pelo verdadeiro bem. A filosofia não busca o bem aparente, ela busca o bem real, o bem verdadeiro.

 

Me pergunto o quão longe estamos disso. O quanto as nossas justificativas, tanto para uma criança quanto para nós mesmos não esbarra em dogmas que confortam, acalentam e enganam.

 

Afinal, se eu roubo e não sou visto, sou mais ou menos ladrão do que aquele que é pego?

Se eu traio, e não sou descoberto, sou mais ou menos traidor que aquele que é descoberto?

Se eu minto, e esta não tem pernas curtas, o quão mentiroso sou eu?

 

Enquanto esbarramos em dogmas, a vida continua...



Categoria: Cultura
Escrito por Johannes às 20h39
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Aos prantos de Kaspar Hauser

 

"Eu prefiro a vida no cativeiro do que essa aqui!" (Kaspar Hauser)

 

O que é real? O natural ou a aparência? O que é absoluto não seria fuga da natureza? Seria aparência a própria natureza? Haveria uma essência humana inata? Perguntas, e mais perguntas é o que se fazemos ao assistir a esse belo filme, "O enigma de Kaspar Hauser" de Werner Herzog. Kaspar Hauser chora! Ao ser tocado por uma chama e por sentir-se desprezado, a chama queima a sua pele, mas o desprezo queima a alma, é o pranto daquele que é o que é, que vive integral, é por inteiro e, portanto, natural, mas que não entende o porquê de ser condenado por aquilo que é. Werner Herzog nesse filme parece propor uma discussão sobre o Estado de Natureza, no entanto, Kaspar Hauser não era bom e nem mau por natureza, ele apenas não era, não existia enquanto pessoa. Foi no seu se dar para o mundo que as coisas se tornaram diferentes, ele era diferente, aquele que não era pois era só, mas também não venho a ser em meio aos homens. Para ele foi imposto aquele "ser homem" daquele tempo: se disfaçar nas aparências. O viver em sociedade é domesticar a natureza, é perder-se no homogêneo, participar da humanidade é com certeza desnaturalizar-se... Os prantos de Kaspar Hauser nos fazem pensar sobre a dor física e o sofrimento, sofrimento que é a consciência da dor, por isso, o sofrer é racional? Seria Kaspar Hauser expressando a sua racionalidade, exercendo-a? Mais uma pergunta! Esse filme é uma verdadeira aula de filosofia, no sentido que te põe a pensar do início ao fim, em suas cenas, em suas imagens, no seu silêncio. Estaríamos sendo guiados por um guia cego no deserto, mas que vê melhor do que quem vê? Kaspar Hauser ouve o silêncio, enxerga e nos guia ao pensamento sobre a nossa própria humanidade... Os prantos de Kaspar Hauser são motivados pela constante imposição da sociedade para que o ser humano não seja natural, viver a constante experiência da aparência;  mas é preciso ater-se a história que Kaspar conta sobre o cego que guia uma caravana no deserto, o cego diz: "O que vocês acham que são montanhas, e que impedem o nosso caminho, é apenas ilusão de quem enxerga com os olhos". 



Categoria: Cultura
Escrito por Marcos Goulart às 21h31
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Artigos de Slavoj Zizek (em inglês e alemão)

http://www.egs.edu/faculty/zizek-articles.html

Slavoj Zizek é filósofo esloveno, professor e pesquisador do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana. É autor de vários livros, entre os quais se destacam O mais sublime dos histéricos, Eles não sabem o que fazem, Um mapa da ideologia (org.), Everything you Always Wanted to Know about Lacan (but Were Afraid to Ask Hitchcock), The Plague of Fantasies Revolution at the Gates.

 



Escrito por Johannes às 00h42
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