parataxis


PAGINAÇÃO

Outrora eu era daqui,

e hoje regresso estrangeiro,

forasteiro do que vejo e ouço,

velho de mim.

 

Fernando Pessoa

 

 

            Iniciar uma atividade parece sempre tarefa difícil. O peso de demarcar o território a ser percorrido, assim como a responsabilidade de honrar o objeto que será apresentado, afronta. E afronta porque, a partir deste primeiro gesto, que inaugura uma cadeia de fenômenos, o ato não é mais dado como possível (de imaginação ou escolha), mas como necessário já que, obviamente, é ele quem inaugura esta cadeia de fenômenos.

            Talvez por isso todo gesto humano, banal ou decisivo, seja gesto difícil: inaugurar uma vida (enquanto escolha e ato de querer ter filhos), ou inaugurar a própria liberdade (enquanto busca infinita de emancipação de determinações). Todos trazem a mesma marca daquele que escolhe qual página será lida daqui para adiante, pois se encaixa nesta cadeia relevante de fenômenos que fica para a posteridade: página que deixa coerente a história lida daqui para adiante.

            Este é um modo de ler a história, ou mesmo de fazê-la. Inaugurado pelo ato de escrever, um homem redige as páginas de sua vida, lidas como um conjunto finito de ações. Este também é o modo de conceber a criação artística: ato livre, porque indeterminado, criador de novo significado no mundo, novo conjunto que a natureza não determinou.

            Porém, no presente seguido o ato inaugural, o primeiro futuro vislumbrado, as coisas são diferentes, são necessárias e determinadas: o passado é algo dado. Aquele que podia escolher, agora é responsável pela escolha. Basta somente rever o ato, dadas suas conseqüências no mundo para que seja testada sua relevância, sua responsabilidade.

            Agora, tanto para quem paginou ou mesmo quem lê o mundo, ávido por respostas, trata-se de rever ponto a ponto, número a número, palavra a palavra em ato crítico, exaustivo, cujo fim é, por incrível que pareça, uma nova determinação: a identidade.

            De maneira similar, a arte é uma apropriação da vida: ato crítico de revisita. Passado revisitado, assim como um livro, só pode ser aquele que um dia foi escrito, marcado, determinado... paginado.



Categoria: Cultura
Escrito por Johannes às 20h50
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