CULPADOS!
A reflexão sobre a culpa é uma constante em nossa cultura... Dizia um
filósofo: primeiro, culpamos a Deus; depois, o destino; a sociedade e, por fim,
admitimos. Será que sempre admitimos? E quando erramos e sequer
sabemos?
Os filmes sempre apresentam o erro na terceira pessoa. Ali somos os
espectadores, os juízes invisíveis que conectamos os fatos e executamos a
sentença: ele deve morrer porque matou tantos e este, deve matá-lo porque é
justo. A justiça tomada enquanto parâmetro da desigualdade.
O velho provérbio popular deve ser investigado: o que os olhos não
vêem, o coração não sente.
Embora o sentimento de culpa não exista, ou melhor, o julgamento não
exista, assim como em um crime bem cometido, sem testemunhas, resta o juízo da
consciência, o juiz interno, aquele do qual delegamos ao invisível, a
causalidade infantil que conecta fatos absurdos: o menino roubou maçãs e, um dia
depois, tropeçou e caiu do penhasco. Ele cairia se não tivesse roubado? E, mesmo
que tenha roubado, o fato dele cair é causado pelo seu roubo? A esta resposta,
os psicólogos detectam a consciência infantil, a minoridade da razão em ação, o
período teológico, nas palavras de Comte.
Uma traição, ela diminui se o traído não sabe? E, se ele sabe, sou
mais culpado? Daí, o que podemos extrair é que, os fatos no mundo não existem
sem sujeitos. Isto sim é cartesiano: o objeto só existe para um sujeito
pensante. Ou seja, o erro só existe para um sujeito que pensa e duvida, para um
sujeito que julga.
A lição cristã cabe aqui? É preciso ver para crer. É preciso ver para
existir. É preciso que o fato seja público para que ele seja julgado. Se eu sou
o último homem do mundo, serei impune? Erro o quanto quero e nada me impede? Na
verdade, o que me impede de errar? E o que me justifica algo superior, exterior,
que execute a justiça. Que apresente a justiça verdadeira para os
homens?
Ainda cremos nisso. E enquanto cremos nisso, as máximas cristãs ainda
existem.
Como última análise, vale lembrar a justificativa última de Platão,
em nome de Sócrates no diálogo Górgias.
Frente ao ceticismo de Cálicres, frente a sua intolerância para com
as justificativas socráticas acerca da necessidade da filosofia enquanto busca
da verdade em oposição à sofística enquanto prática da oratória e do
convencimento, frente a isso Cálicles diz não mais se interessar pelo que
Sócrates pronuncia. Sócrates justifica então a filosofia enquanto a busca pela
verdade, enquanto aquilo que não engana os homens, aquilo que não mascara a
realidade e os torna infelizes: enquanto a busca pela verdadeira felicidade,
pelo verdadeiro bem. A filosofia não busca o bem aparente, ela busca o bem real,
o bem verdadeiro.
Me pergunto o quão longe estamos disso. O quanto as nossas
justificativas, tanto para uma criança quanto para nós mesmos não esbarra em
dogmas que confortam, acalentam e enganam.
Afinal, se eu roubo e não sou visto, sou mais ou menos ladrão do que
aquele que é pego?
Se eu traio, e não sou descoberto, sou mais ou menos traidor que
aquele que é descoberto?
Se eu minto, e esta não tem pernas curtas, o quão mentiroso sou
eu?
Enquanto esbarramos em dogmas, a vida continua...
Categoria: Cultura
Escrito por Johannes às 20h39
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|