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Cultura
Em uma interessante ‘primeira aula’ a professora pergunta aos seus alunos: apresentem-se dizendo nome, curso e o que fazem em seus momentos livres.
(os dois primeiros serão suprimidos)
- vejo televisão
- passeio no parque
- tomo chimarrão
- faço esportes
- leio literatura
- estudo
- cuido de meus filhos
- ouço música
- vou ao cinema
- toco baixo
- namoro
- vejo filmes, mas não estes comerciais (este tentava salvar-se)
E, o mais impressionante foi a resposta da ‘artista’:
- Eu, como em meu trabalho eu produzo cultura (subentenda-se, preparo os produtos para vocês consumirem), nas minhas horas vagas, eu bebo.
Escrito por Johannes às 00h11
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João Hélio
No artigo Razão e Sensibilidade, Renato Janine Ribeiro tenta se posicionar, enquanto filósofo e homem (comos e fossem coisas distintas) acerca do tão falado assassinato do menino de 6 anos, João Hélio.
Link para o artigo
Escrito por Johannes às 13h12
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Considerações
Recentemente, em função de atos cada vez mais hediondos que tem se
dado no dia a dia, a mídia tem elevado sua voz, discutindo até mesmo seu papel
dentro da sociedade brasileira. De fato, são inúmeras as questões, desde que a
Indústria cultural se estabeleceu enquanto tal. Contam que, no Ocidente,
principalmente após o chamado nascimento do período moderno, as formas de
comunicação de massa mais e mais foram ocupando um espaço que parecia
encontrar-se vazio. Em minha mente, tenho Diderot e os enciclopedistas que, de
porta em porta, legavam conhecimentos filosóficos para armar o mais parvo dos
indivíduos contra a escolástica: a religião era o alvo. Ela, como alvo, teria de
ser abatido. Trazia a minoridade da razão, o véu que encobria a realidade,
mascarava da mente humana a verdade do mundo. Hoje, o alvo é outro mas, a luta,
parecida.
Em direção a luta pelo esclarecimento, marcamos nossa herança
iluminista. A idéia de que um dia, a humanidade ressurja através da mente
esclarecida e que, a própria filosofia chegue a seu fim, já que seu fim é o
esclarecimento, se manifesta em atos como o ocorrido pela metade de fevereiro
deste corrente ano. A tão falada morte do menino João Hélio, de 6 anos, trouxe
para nós o retrato duplo daquilo que somos e do que não gostaríamos de
ser.
Existem aqueles que acreditam que através de resoluções legais (tais
como redução da maioridade penal, privatização de alguns órgãos de segurança,
efetivação da pena de morte, etc) e que, para tanto, fazem valer-se da
burocracia do Estado. Buscam reivindicar, através do fato, uma opressão boa:
morte aos infratores. Infelizmente, estes se esquecem da dimensão social que é
também motor de ação como esta. Leis e instituições não mudam o mundo: quem o
faz, são os homens.
O problema é que, em momentos de desespero, o ser humano costuma ter
atitudes muito diversas: de uma canonização a uma catarse, do ceticismo a fé, da
racionalidade a um estado quase animal de irracionalidade.
Neste caldeirão, estão postos todos os elementos que se dizem fundar
nossa sociedade e que, nesse momento, não são capazes de dar uma resposta. Aos
desesperados e aos infratores. E isso porque talvez a resposta não exista. Quem
será o último a apagar a luz?
Nossa marca da hipocrisia não poderia ser diferente agora. Enquanto
alguns oferecem sua face gentilmente para que ela seja dilacerada, outros buscam
o instinto destrutivo mostrando que o ser humano não é feito só de razão. Ele
também é feito de desespero.
Escrito por Johannes às 13h07
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CULPADOS!
A reflexão sobre a culpa é uma constante em nossa cultura... Dizia um
filósofo: primeiro, culpamos a Deus; depois, o destino; a sociedade e, por fim,
admitimos. Será que sempre admitimos? E quando erramos e sequer
sabemos?
Os filmes sempre apresentam o erro na terceira pessoa. Ali somos os
espectadores, os juízes invisíveis que conectamos os fatos e executamos a
sentença: ele deve morrer porque matou tantos e este, deve matá-lo porque é
justo. A justiça tomada enquanto parâmetro da desigualdade.
O velho provérbio popular deve ser investigado: o que os olhos não
vêem, o coração não sente.
Embora o sentimento de culpa não exista, ou melhor, o julgamento não
exista, assim como em um crime bem cometido, sem testemunhas, resta o juízo da
consciência, o juiz interno, aquele do qual delegamos ao invisível, a
causalidade infantil que conecta fatos absurdos: o menino roubou maçãs e, um dia
depois, tropeçou e caiu do penhasco. Ele cairia se não tivesse roubado? E, mesmo
que tenha roubado, o fato dele cair é causado pelo seu roubo? A esta resposta,
os psicólogos detectam a consciência infantil, a minoridade da razão em ação, o
período teológico, nas palavras de Comte.
Uma traição, ela diminui se o traído não sabe? E, se ele sabe, sou
mais culpado? Daí, o que podemos extrair é que, os fatos no mundo não existem
sem sujeitos. Isto sim é cartesiano: o objeto só existe para um sujeito
pensante. Ou seja, o erro só existe para um sujeito que pensa e duvida, para um
sujeito que julga.
A lição cristã cabe aqui? É preciso ver para crer. É preciso ver para
existir. É preciso que o fato seja público para que ele seja julgado. Se eu sou
o último homem do mundo, serei impune? Erro o quanto quero e nada me impede? Na
verdade, o que me impede de errar? E o que me justifica algo superior, exterior,
que execute a justiça. Que apresente a justiça verdadeira para os
homens?
Ainda cremos nisso. E enquanto cremos nisso, as máximas cristãs ainda
existem.
Como última análise, vale lembrar a justificativa última de Platão,
em nome de Sócrates no diálogo Górgias.
Frente ao ceticismo de Cálicres, frente a sua intolerância para com
as justificativas socráticas acerca da necessidade da filosofia enquanto busca
da verdade em oposição à sofística enquanto prática da oratória e do
convencimento, frente a isso Cálicles diz não mais se interessar pelo que
Sócrates pronuncia. Sócrates justifica então a filosofia enquanto a busca pela
verdade, enquanto aquilo que não engana os homens, aquilo que não mascara a
realidade e os torna infelizes: enquanto a busca pela verdadeira felicidade,
pelo verdadeiro bem. A filosofia não busca o bem aparente, ela busca o bem real,
o bem verdadeiro.
Me pergunto o quão longe estamos disso. O quanto as nossas
justificativas, tanto para uma criança quanto para nós mesmos não esbarra em
dogmas que confortam, acalentam e enganam.
Afinal, se eu roubo e não sou visto, sou mais ou menos ladrão do que
aquele que é pego?
Se eu traio, e não sou descoberto, sou mais ou menos traidor que
aquele que é descoberto?
Se eu minto, e esta não tem pernas curtas, o quão mentiroso sou
eu?
Enquanto esbarramos em dogmas, a vida continua...
Escrito por Johannes às 20h39
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Aos prantos de Kaspar Hauser
"Eu prefiro a vida no cativeiro do que essa aqui!" (Kaspar Hauser)
O que é real? O natural ou a aparência? O que é absoluto não seria fuga da natureza? Seria aparência a própria natureza? Haveria uma essência humana inata? Perguntas, e mais perguntas é o que se fazemos ao assistir a esse belo filme, "O enigma de Kaspar Hauser" de Werner Herzog. Kaspar Hauser chora! Ao ser tocado por uma chama e por sentir-se desprezado, a chama queima a sua pele, mas o desprezo queima a alma, é o pranto daquele que é o que é, que vive integral, é por inteiro e, portanto, natural, mas que não entende o porquê de ser condenado por aquilo que é. Werner Herzog nesse filme parece propor uma discussão sobre o Estado de Natureza, no entanto, Kaspar Hauser não era bom e nem mau por natureza, ele apenas não era, não existia enquanto pessoa. Foi no seu se dar para o mundo que as coisas se tornaram diferentes, ele era diferente, aquele que não era pois era só, mas também não venho a ser em meio aos homens. Para ele foi imposto aquele "ser homem" daquele tempo: se disfaçar nas aparências. O viver em sociedade é domesticar a natureza, é perder-se no homogêneo, participar da humanidade é com certeza desnaturalizar-se... Os prantos de Kaspar Hauser nos fazem pensar sobre a dor física e o sofrimento, sofrimento que é a consciência da dor, por isso, o sofrer é racional? Seria Kaspar Hauser expressando a sua racionalidade, exercendo-a? Mais uma pergunta! Esse filme é uma verdadeira aula de filosofia, no sentido que te põe a pensar do início ao fim, em suas cenas, em suas imagens, no seu silêncio. Estaríamos sendo guiados por um guia cego no deserto, mas que vê melhor do que quem vê? Kaspar Hauser ouve o silêncio, enxerga e nos guia ao pensamento sobre a nossa própria humanidade... Os prantos de Kaspar Hauser são motivados pela constante imposição da sociedade para que o ser humano não seja natural, viver a constante experiência da aparência; mas é preciso ater-se a história que Kaspar conta sobre o cego que guia uma caravana no deserto, o cego diz: "O que vocês acham que são montanhas, e que impedem o nosso caminho, é apenas ilusão de quem enxerga com os olhos".
Escrito por Marcos Goulart às 21h31
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[retirado do Blog do Itaulab (presente em nossos links). Já o link para a Bienal 3000 de São Paulo, o link é www.biennale3000saopaulo.org]
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Publicamos em primeira mão o provocativo texto de Etienne Boulba, crítico independente de arte, sobre a Bienal 3000 de São Paulo, o último prank de Fred Forest.
A Bienal 3000 de São Paulo é um acontecimento que ficará na história da arte como um novo modelo para sua produção, difusão e relação com o público na sociedade da informação e comunicação, na qual vivemos.
A Bienal 3000 é uma Bienal planetária, digital, participativa e prospectiva que ocorre no espaço físico do MAC (Museu de arte Contemporânea de São Paulo) e no espaço virtual da Internet.
Diversos críticos de arte reunidos em Paris para seu Congresso Internacional em outubro de 2006 já a reconheceram sua importância. Além da 27ª Bienal que foi seu ponto de ancoragem, a Bienal 3000 de São Paulo questiona criticamente os circuitos da arte contemporânea e seu funcionamento. Em 1º de novembro de 2006 a ação Bienal 3000, concebida e realizada por Fred Forest, simultânea à 27ª Bienal oficial de São Paulo, já pode ser considerada um sucesso especial. Deve-se notar que este projeto continuará a se desenvolver até dia 15 de dezembro de 2006. Por conseguinte, pela comunicação viral induzida pelo artista na Internet através de suas próprias redes, este sucesso ainda não pôde atingir dimensão ainda mais importante. Até agora houve mais de 1.000 participações, boa parte delas do Brasil e América Latina, mas também da França, Portugal, Canadá, Bélgica, Itália, Eslovênia, Áustria, Polônia, etc. São pinturas, desenhos, fotos, vídeos, performances, esculturas, poemas e uma reflexão teórica sobre arte que indicam uma ampla diversidade de disciplinas representadas.
Tal participação já seria em si expressiva, mas o que chama a atenção é, de modo global, a própria "qualidade" das obras propostas pelos internautas! A experiência de Fred Forest é uma experiência enriquecedora na medida em que ela nos permite questionar, dentro da arte contemporânea, a pertinência dos julgamentos dos críticos (os curadores das bienais e outras manifestações) de quem decide, recusa ou ignora artistas que se candidatam a apresentar suas obras ao público.
O Congresso Internacional da AICA (Associação Internacional dos Críticos de Arte) que acabou há pouco em Paris, demonstra uma crise da profissão perante a dificuldade de seleção, que só cresce. O congresso percebe um deslocamento cada vez maior da estética para a sociologia e a antropologia. O problema que Forest quer marcar, ele que é doutor pela Sorbonne e tem assim respaldo para se manifestar sobre esta situação, do mesmo modo que um curador de qualquer exposição oficial, é a onipresença do mercado, seja em São Paulo, na Documenta de Kassel, na Bienal de Veneza ou na FIAC em Paris - o que contribui a prerrogativas e arbitrariedades que influenciam direta ou indiretamente a seleção de obras. Assim, seria a economia quem, em última instância, determinaria e legitimaria quais os valores simbólicos da sociedade contemporânea? Sabendo-nos breves, poderíamos dizer que não é mais Kant quem decide, ou Artur Danto, mas Bill Gates hoje e, amanhã, o Google!
Se a 27ª Bienal recorres a Roland Barthes para legitimar seu conceito fundador, se fosse para lançar mão da reflexão universitária francesa, ela poderia fazer o oposto e recorrer a outro filósofo, Jean Baudrillard, que teve a oportunidade de denunciar em alto e bom tom a arte contemporânea como uma impostura.
O segundo ponto que gostaríamos de notar é como a ação de Forest ressalta o fracasso desta 27ª Bienal que pretendia, sem prudência, e apoiada por propagandas e colóquios preparatórios, ser uma bienal popular, periférica, dispersa, etc. O resultado negativo é edificante e não serão dois ou três grupos político-sindicais, utilizados como álibis, que mudarão algo. Lisette Lagnado é muito mais inteligente que isso para saber que a questão da arte não é uma questão de bons sentimentos, mas de educação, do meio social e da transformação das superestruturas, como diria Marx. Neste caso não se trata de um filósofo do Colégio da França quem poderia mudar alguma coisa, de qualquer modo, um político à la Lula, se não o derrubam de seu pedestal.
A ação de Fred Forest pretende por sua demonstração crítica apontar para, de um lado, a arbitrariedade de escolha das bienais oficiais e, de outro, mostrar que as redes da Internet e seus espaços virtuais constituem-se como uma alternativa digital que pode sinalizar uma mudança cultural inexorável. Na ação de Forest, artistas reconhecidos e importantes também quiseram se manifestar. Foram os casos de Eduardo Kac, Clemente Padin, Maurice Benayoun, Miguel Chevalier, Lucas Bambozzi, Gilbertto Prado, Roland Baladi, Roland Sabatier, Jean-Noel Laszlo e dezenas de outros. Mas na Bienal 3000 também há numerosos outros artistas que jamais foram convidados para uma Bienal, cuja produção não deixa nada a desejar ao que vemos nas galerias de Nova York, Londres, Milão ou Berlim, ou mesmo em alguns museus de arte contemporânea que frequentemente se contentam em seguir o movimento e se enquadrar no mercado. Um mercado que, sob a forma do marketing cultural, faz e desfaz valores e reputações como em manipulações da bolsa.
Forest nos mostra, com a Bienal 3000, que vias alternativas se abrem a esses artistas agora, que capazes de por conta própria utilizar as tecnologias de comunicação. Em vão, Fred Forest pediu cortesmente a Lisette Lagnado a possibilidade de organizar com ela um debate público sobre essas questões, mas a única resposta da curadora da 27ª Bienal, até agora, é uma recusa silenciosa, prudente e envergonhada.
Enfim, para finalizar, é importante dizer que Fred Forest fez uma instalação no MAC com um dispositivo pelo qual sua Bienal do Ano 3000, de maneira minimalista, permite por um minúsculo orifício, que se descubra a imensidão do mundo. A imensidão de um mundo infinito, onde imagens, sons, palavras, vídeos, propagam-se por um espaço virtual apropriado pela arte atual. Se a 27ª Bienal oficial de São Paulo não apresenta sequer uma instalação ligada à Internet, Fred Forest mostra que ele, sim, conseguiu realizar uma Bienal popular, periférica e dissolvida que a Bienal oficial tanto quis realizar. Será preciso esperar que este ensinamento seja apropriado pela Bienal oficial do ano 3000...
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[Outras notícias nos links: http://www.lsi.usp.br/aun/_reeng/materia_imprime.php3?cod_materia=0307018 e na revista cult, http://revistacult.uol.com.br/website/site.asp?edtCode=E277DF61-D718-4085-81BD-02A58A04F04C&nwsCode=AF0BE7F8-B553-4126-82BA-C343B0C00D68]
Escrito por Johannes às 23h01
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Trecho da entrevista com Jorge Macchi
No teu trabalho, muitas vezes, a música troca o sentido da imagem ou lhe dá novos sentidos. Ou seja, tem um papel muito importante. De que forma a música te move? É o que eu dizia antes. Há recordações que tenho dos momentos de tocar música que são muito vívidos e que tem que ver com emoção pura, com situações que não se podem reduzir a palavras. Eu posso explicar trabalhos meus. Mas, na realidade, eu acho que os melhores trabalhos são aqueles em que não posso explicar nada. A música, por sua natureza, tem essa característica – é impossível explicar, é forma pura todo o tempo. Então, quando se introduz uma forma pura, como no caso da obra de Veneza (instalação La Ascención), é uma idéia muito simples que modifica absolutamente o sentido. Talvez, quando eu conte a instalação, há uma situação quase humorística, mas a música lhe outorga uma forma que não tem nada a ver com humor. Eu gosto esse choque entre essa imagem e essa ironia e a música, que é forma pura. A música não pode ser irônica.
Para mim não pareceu irônica a instalação e mesmo olhando outros trabalhos me parece um olhar de um mundo sem perspectiva. Na instalação de Veneza, as pessoas tentam ascender, mas não conseguem. Nos trabalhos com os mapas, as ruas não levam a lugar nenhum, não há espaço para viver. Como é isso para ti? A depressão! (Risos).
Há como um esvaziamento do mundo. Por isso, para mim a ironia é fundamental. Não quer dizer que uma pessoa na presença desses trabalhos vá rir. A ironia serve para enfrentar um problema, ou um pesadelo ou uma fantasia sinistra de uma maneira simples, sem dramatismo. Acho que essa é a palavra. Como enfrentar um pesadelo, uma situação trágica sem dramatismo? Eu quero que o dramatismo seja uma leitura posterior, que a primeira aproximação tenha a ver com a beleza e com a forma, e que depois, uma vez passado esse primeiro filtro, se chegue a situação dramática. Entendo o que dizes acerca do esvaziamento e de situações negativas, mas não poderia explicar o porquê. Eu acho que os artistas fazem isso – propõem. E cabe a outras pessoas interpretar, compreender se tem algum reflexo na realidade ou se é simplesmente uma elucubração do artista.
http://iberecamargo.uol.com.br/content/revista_nova/entrevista_integra.asp?id=179
[La Ascención, instalação que consistiu na montagem de uma cama elástica abaixo da imagem sacra. Um artista saltava, buscando a ascenção que a imagem promovia, sem nunca alcançá-la, ao mesmo tempo em que o som que produzia construía uma musicalidade. Pela imagem pode-se ter uma pequena idéia]
  
Escrito por Johannes às 23h12
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Diante da "Banalidade do Mal" e da Indiferença em relação ao sofrimento alheio, ainda é possível se falar em Ética?
P.S: Na foto, turistas sorriem não dando a mínima para um cadáver de um homem que havia se afogado.
Escrito por Guilherme às 01h09
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PAGINAÇÃO
Outrora eu era daqui,
e hoje regresso estrangeiro,
forasteiro do que vejo e ouço,
velho de mim.
Fernando Pessoa
Iniciar uma atividade parece sempre tarefa difícil. O peso de demarcar o território a ser percorrido, assim como a responsabilidade de honrar o objeto que será apresentado, afronta. E afronta porque, a partir deste primeiro gesto, que inaugura uma cadeia de fenômenos, o ato não é mais dado como possível (de imaginação ou escolha), mas como necessário já que, obviamente, é ele quem inaugura esta cadeia de fenômenos.
Talvez por isso todo gesto humano, banal ou decisivo, seja gesto difícil: inaugurar uma vida (enquanto escolha e ato de querer ter filhos), ou inaugurar a própria liberdade (enquanto busca infinita de emancipação de determinações). Todos trazem a mesma marca daquele que escolhe qual página será lida daqui para adiante, pois se encaixa nesta cadeia relevante de fenômenos que fica para a posteridade: página que deixa coerente a história lida daqui para adiante.
Este é um modo de ler a história, ou mesmo de fazê-la. Inaugurado pelo ato de escrever, um homem redige as páginas de sua vida, lidas como um conjunto finito de ações. Este também é o modo de conceber a criação artística: ato livre, porque indeterminado, criador de novo significado no mundo, novo conjunto que a natureza não determinou.
Porém, no presente seguido o ato inaugural, o primeiro futuro vislumbrado, as coisas são diferentes, são necessárias e determinadas: o passado é algo dado. Aquele que podia escolher, agora é responsável pela escolha. Basta somente rever o ato, dadas suas conseqüências no mundo para que seja testada sua relevância, sua responsabilidade.
Agora, tanto para quem paginou ou mesmo quem lê o mundo, ávido por respostas, trata-se de rever ponto a ponto, número a número, palavra a palavra em ato crítico, exaustivo, cujo fim é, por incrível que pareça, uma nova determinação: a identidade.
De maneira similar, a arte é uma apropriação da vida: ato crítico de revisita. Passado revisitado, assim como um livro, só pode ser aquele que um dia foi escrito, marcado, determinado... paginado.
Escrito por Johannes às 20h50
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CARTAS DESESPERDAS II
"Vocês não ouvem os assustadores gritos ao nosso redor que habitualmente chamamos de silêncio?". (Prólogo do Filme O Enigma de Kaspar Hauser de Herzog, 1974).
Uma carta tem como fim expressar o sentimento de angústia de não poder falar aquilo que se quer para alguém. Pelo fato de pressupor uma distância relativa a dois sujeitos, uma carta sempre vai querer dar conta de vários fatos - se possível todos - vividos em uma pequena parcela de tempo. A razão de uma carta é sempre o encanto, é receber a visita de alguém distante, que apenas diz: "Veja só, eu ainda estou vivo e lembro de ti... Veja só como eu estou... Ainda lembras de mim?". Só é sincera aquela carta enviada sem ser passada a limpo, pois ela reproduz exatamente o diálogo - a voz é a caneta que transita pela folha de papel. Aquele que não envia cartas já escritas se perde em uma idéia maluca de ao mesmo tempo querer ser o sujeito que escreve e o que receberá, transferindo a sua imagem e consciência para um outro, e portanto, sendo a medida de todas as coisas... Quem não envia cartas já escritas tem a pretensão de sentir - tentar - aquilo que o interlocutor sentirá... Em um mundo que a tecnologia substitui o encanto, uma carta enviada para alguém dizendo apenas: "Oi, tudo bem?", já guarda em si mesmo uma imensa beleza - a expontaneidade expressa em uma folha de papel -, e para o nosso mundo cada vez mais racional-tecnicista, uma carta escrita nesses moldes tem em si mesmo algo de revolucionário.
Ao som de "Longe de Você" do Vitor Ramil.
Escrito por Guilherme às 23h53
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I
O caráter destrutivo não vive do sentimento de que a vida vale ser vivida, mas de que o suicídio não vale a pena.
(Walter Benjamin, O Caráter Destrutivo. In.: Imagens do Pensamento, p. 235-7; Obras Escolhidas VII, Ed. Brasiliense)
O impacto da frase denota a maldição da busca: o caráter destrutivo encontra seu álibi onde menos espera.
Talvez todo homem – aqui o masculino – represente naturalmente o caráter destrutivo: sua espada permite isso. Mas, constantemente esquece o caráter destrutivo do feminino: erro de Agamenon.
O feminino, pelo seu caráter construtivo imanente, ao voltar-se contra si mesmo e contra o outro produz hecatombe tal que o atentado contra o ser é total: uma ferida sem cura. Nesse sentido, o homem e sua ignorância devem permanecer calados frente ao triunfo da mulher.
Aqui, o jargão é perfeito: dia da caça e dia do caçador.
Escrito por Johannes às 12h03
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AO ALCANCE DE TODOS

Uma mão estendida para algo que constitui as nossas vidas... O Triunfo da Mídia!
Ao som de "I`m Trying" do Face To Face
Escrito por Guilherme às 01h22
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PERTO DEMAIS!
Consciência
Amor! Amor!
Já não tenho medo de te perder
Tenho medo, muito medo.
De me perder em ti.
Carlucci Cavalcanti (13o. Poemas no ônibus, Porto Alegre, 2005.)
Um dos princípios que rege o gosto estético é o da identidade entre a obra e o espectador, entre o sujeito e o objeto. Estes, identificados por traços subjetivos – do sujeito – e objetivos – do objeto – conectam-se principalmente por aquilo que se convencionou o nome cultura.
O que dizer de Carlucci?
Dias atrás, em um jornal de circulação estadual, noticiou-se o lançamento de uma peça nos Estados Unidos cujo título – bastante singular – é: Don’t follow me, I’m lost too. Assim como o medo de Carlucci, compartilhado por todos nós em maior ou menor grau, esta frase carrega algo tão íntimo que em conjunto com o tema geral de Closer (EUA, 2004), aprofunda o tema central do filme: a coisificação do outro (reificação).
Aquilo que de grotesco existe nas prateleiras dos supermercados é levado para a vida prática: padronização e escolha. Embora em todo produto contenha a mentira da diferença frente aos demais – escondida por trás da marca – ainda sim esta diferença carrega uma dose de verdade: a atribuição de propriedades distingue um objeto de outro. Frente ao outro, a única verdade que ainda se encontra é em face do desespero: este resguarda o que existe de espontâneo no pensamento humano.
Daí o peso de I need a fix `cause I’m going down (Beatles) e voltamos a Carlucci: da consciência reificada, só resta o medo de que eu, perdido em mim mesmo, receba o outro, e este se perca em mim.
Perder-se, aqui, é angústia. E esta, verdadeira porque traz a experiência do nada, só mostra que a reificação é verdadeira e o desespero, patologicamente falso (neurótico) pela psicologia.
Escrito por Johannes às 12h44
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O que é que eu faço com isso?
Paulatinamente, estágios da vida são adiantados. Não obstante a angústia de tentar ser maduro precocemente, o interesse vai além: como são bonitas crianças grandes!
Tais como plantas de estufa - ou anões, como preferir - é impossível escapar ao grotesco o mero olhar de pequenos empresários, já com suas maletas e laptops, com celular tocando ao mesmo tempo em que o olhar frenético mira o relógio: 'se tempo é dinheiro, faremos o primeiro render para multiplicarmos a uma taxa x o segundo.'
A técnica sublima a espontaneidade. Se esta, a segunda, constitui o campo do livre pensamento, como mantê-la frente a indústria cultural?
Em dicionários de ciências sociais, a definição básica de educação é: ato de transmissão de cultura. Uma pergunta: ainda é verdadeiro falar em cultura?
Plantas de estufa, anões ou 'crianças grandes' vivem angustiadas: pensar no amanhã como se fosse hoje é pior que querer ver o tempo passar. Embora ambos mentirosos, o segundo angustia-se com a verdade de que não pode transformar o tempo. O primeiro, vive a mentira de que até seu tempo ele acredita manipular...
Que se lembre disso em seu leito de morte, então.
Escrito por Johannes às 00h01
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TEATRO MÁGICO
Harry Haller olha-se em um espelho onde contempla as suas diversas faces; faces essas que nem ele mesmo conhece, mas que estão ali e fazem parte do seu ser. Depois de Descartes somos no mínimo dois, e depois de Nietzsche no máximo milhares. Definir uma pessoa é sempre uma tarefa difícil e sempre carregada de equívocos, pois em um mundo fragmentário nós mesmos somos fragmentos – um pedaço de si a cada momento, jamais tudo ao mesmo tempo, jamais uma unidade coesa. Talvez sejamos uma jaula onde diversos seres estão em constante conflito... A cada momento da vida libertamos um lobo que há em nós, e a nossa pobre razão sempre quer paz, jamais silêncio, pois o grito que vem de dentro ecoa, e acorda as diversas almas que brigam entre si em nosso ser.
(Deixando o Pago – Vitor Ramil)
Escrito por Guilherme às 12h52
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Tributo
pago ao romantismo
BEETHOVEN
(1770-1827). SYMPHONY No. 3 IN E-FLAT MAJOR, OP. 55 'EROICA'. I. Allegro con
Brio
'-
Oh!, ver-te e para deixar-te ainda uma vez! E não pensaste, Giorgia, que lhe
fora melhor ter morrido devorado pelos cães na rua deserta, onde me levantaram
cheio de sangue? Que fora-te melhor assassinar-me no dormir do ébrio, do que
apontar-me a estrela errante da ventura e apagar-me a do céu? Não pensaste que,
após cinco anos, cinco anos de febres e insônias, de esperar e desesperar, de
vida por ti, de saudades e agonia, fora o inferno ver-te para deixar-te? - Compaixão,
Arnold! É preciso que esse adeus seja longo como a vida (...)' [Noite na taverna
VII - Último beijo de Amor]
'INSUPORTÁVEL.
O sentimento de um acúmulo de sofrimentos amorosos explode neste grito: 'Isso
não pode continuar'. 3. Quando passa a exaltação, fico reduzido à mais simples
filosofia: a da resistência (dimensão natural dos verdadeiros coansaços). Suporto
sem me acomodar, persisto sem me endurecer: sempre perturbado, nunca desencorajado'
[Fragmentos de um discurso amoroso]
Na
paráfrase necessária o plágio ainda não se completou: a absorção da cultura
ainda não é plena. Sou falso porque múltiplo, transitório; serei verdadeiro
porque uno, estático: isso vale, mas até quando? (Descartes) A apropriação coletiva
do discurso amoroso inscreve-se desta maneira. Falar do amor é falar do ser
que une e desune, daquele que é inominável e partícipe, uno e múltiplo: não
se fala DE UM amor, mas DO amor. Sua força constelar impede restrições, sejam
conceituais, sejam universais: sua rebeldia é imanente a palavra: é algo que
sinto mas não sei descrever, quero vomitar em você pois meu corpo só, solitário,
não sustenta tamanho peso, preciso, necessito, falo. Invocá-lo é invocar a multidão,
proferi-lo é me inscrever nela.
Escrito por Johannes às 18h20
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SOLIDÃO E
LIBERDADE
Temos
um senso de liberdade tão poderoso que qualquer compromisso passa a gerar um
conflito na gente. É como se a nossa liberdade fosse constantemente atacada,
violentada por tudo que é externo. Em um impulso damos uma volta sobre tudo e
caímos em um precipício individual tão vazio, onde não temos para quem gritar -
uma profunda solidão. É nessa solidão e no silêncio que nos vemos tão impotentes
perante as nossas próprias vidas, pois qualquer impulso de liberdade é prisão no
próprio corpo, qualquer impulso de liberdade é jogar-se em um abismo que não se
sabe se tem fim, e é nele que caímos de braços abertos, na crença de que
estamos, com isso, sendo o que realmente deveríamos ser.
(Torch
Yourself - The Gloria Record)
Escrito por Guilherme às 13h00
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UM INFERNO ENTRE O HOMEM E O SUPER-HOMEM
... Precisava ele gritar mais forte do que o possível. Na verdade a sua angústia e o seu orgulho não saiam de seu corpo, tudo explodia em sua alma. Nunca fora tão difícil externar o que sentia, até porque o ser humano deveria ser superado, e por conseqüência disso, ele mesmo... isso significava o seu fim. Resolveu reconhecer a si mesmo, e um abismo lhe apareceu aos olhos, perdeu-se a si mesmo – um mundo até então nunca descoberto. No fundo sentia que para se ser o Super-homem era preciso ter sido um homem - o último homem -, o que hoje ele já era, sendo assim, meio caminho estava andado.
A dificuldade aumentou ao saber que ele seria um único, pois o super-homem deve ser mais do que todos e aí está a doutrina do super-homem: superar a todos e a si mesmo. Talvez superar a todos seja muito mais fácil do que superar a si mesmo - tão solitário e tão egoísta -, o seu grande problema.
Voltou-se para o abismo até então desconhecido e se viu tão ridículo, tão medíocre, tão humano. Onde estava o super-homem? Dentro de si? Para ele era preciso destruir consigo mesmo, um certo suicídio – não o que busca a morte enquanto a solução, mas o que busca a sua própria negação enquanto afirmação, o que soa um tanto paradoxal.
Em sua mente brotavam questionamentos... Voltar contra a sua própria cabeça a arma do super-homem? Viver uma vida que nada mais seria do que a negação de um ontem pela afirmação de um amanhã? Guerrear consigo mesmo? E o mundo lá fora, não existe?
Esse homem que até então aspirava a super-homem se viu tão sozinho, tão orgulhoso de si mesmo, uma certa auto-suficiência, pois quem se supera não necessita de nada além de si - os outros são meras perspectivas vazias que simplesmente balizam as nossas vidas.
O mundo dos demasiados humanos se voltou contra ele, já não tinha mais olhos para nada, buscava a si mesmo: uma ânsia de se saber. A idéia de superação lhe fazia ser uma mera negação de algo que ele não conhecia. O mundo lhe excluiu ou quem sabe foi o contrário? Viu-se doente, a doença do ideal que ele tanto condenava parecia tomar conta do seu ser, o super-homem era o seu ideal, a verdadeira negação da vida...
Em uma noite, em um daqueles dias em que ele andava cambaleando pelas ruas de seu mundo, conheceu um sábio que lhe fez pensar – aquelas pessoas que destroem a sua vida para erigir sobre ela algo novo. O diálogo foi rápido, mas muito significativo, pois não tinha o pudor dos amigos de longa data, que apenas querem preservar uma amizade, no fundo o sábio não tinha nada a perder... Para os olhos do sábio o super-homem era tão homem, mera criação, talvez uma poesia vagando por dentro de uma alma vazia.
Viu-se novamente tão humano, demasiadamente humano. Já não era mais possível superar a si mesmo, as tentativas sempre resultaram em estagnação, o super-homem repousou...
Depois disso a vida passou a ter um fim em si mesma: reconhecer o mundo e aceitá-lo enquanto tal. Desde já não havia para ele mais um super-homem, e sim um mero ser humano... Que inventou para si um ideal: uma mera referência a ser buscada, um super-homem.
(Don`t let me down - Beatles)
Escrito por Guilherme às 00h46
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SOFRIMENTO
E REDENÇÃO
Há uma enorme contradição
quando não podemos ter a pessoa que queríamos ter. O ser amado é objeto de um
conflito de nossa razão, pois sofremos por ele e ao mesmo tempo o fim do sofrimento
é ele - estando tanto para o inferno quanto para a redenção. Na distância que
guardamos dele – como diz Barthes – “nos exilamos em nosso próprio imaginário”:
deparando-se com um sentimento de impotência perante a vida, tentamos apagar
a chama que queima, e em cada tentativa notamos que o fogo aumenta e queima
ainda mais... Na alma daqueles que tiveram um amor não correspondido há uma
linha tênue que separa o céu do inferno, mas não sabemos onde é o início e o
fim de ambos, diante disso, em um silêncio profundo num tempo que não passa,
equilibramo-nos em uma corda estendida entre o nosso amado e o nosso próprio
exílio: entre imagens ideais e fugas desesperadas.
(Os
pássaros - Los Hermanos)
Escrito por Guilherme às 17h19
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