parataxis

Filosofia


Talvez nada distinga tão radicalmente as massas modernas das existentes em séculos anteriores do que a perda de fé em um Juízo Final: os piores perderam seu temor e os melhores perderam suas esperanças. Incapazes de viver sem temor e sem esperança, sentem-se atraídas por qualquer esforço que pareça prometer a fabricação humana do Paraíso pelo qual anseiam tanto quanto pelo Inferno de que têm medo. Da mesma forma que as características popularizadas da sociedade de classes de Marx possui uma ridícula semelhança com a Idade Messiânica, assim também a realidade dos campos de concentração em nada se assemelha tanto quanto às imagens medievais do inferno.

Hannah Arendt, As origens do Totalitarismo, p. 579



Escrito por Johannes às 15h42
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Gosto bem fundamentado

            Diante da pergunta que fundamenta um gostar, alguns costumam procurar a resposta alhures e outros, dentro do próprio gostar. De um lado, o gosto é fundamentado por padrões completamente externos ao sujeito, transmitidos ‘como que por osmose’ da sociedade, das categorias transcendentais ou até mesmo de Deus: nesse caso a investigação se calca em uma justificativa externa ao sujeito e ao objeto, se encontra na relação entre eles. Por outro lado, constitui-se uma investigação interna ao gostar ele mesmo: busca-se no objeto ‘que se gosta’ aspectos que o constituem como passivo de gosto, as qualidades são internas ao objeto, ele é gostável.

            É claro, aí poderíamos enfiar tranqüilamente aquela justificação que busca, somente no sujeito gostante aspectos internos a este, dados por uma mutabilidade tão mutável que torna-se impossível a compreensão dessa justificação: a face do relativismo modifica como a água do rio, ao olhar para ele, já não é o mesmo e isso ao infinito ...

            A pergunta pelo ser, difícil de ser respondida, parece perder-se nas rotas da pergunta, ao invés de destruir-se no caminho da resposta.

Escrito por Johannes às 19h48
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Filosofia da arte

Dois bons artigos sobre filosofia da arte. No primeiro, o filósofo Arthur Danto fala sobre sua trajetória de filósofo, artista e, finalmente, filosofo da arte. O segundo, artigo da profa. Virginia Figueiredo, trabalha com questões sobre arte e realidade a partir do artista Magritte e dos filósofos Danto, Heidegger e Foucault. Excelentes.

A filosofia da arte: entrevista com Arthur C. Danto. Novos estud. - CEBRAP.,  São Paulo,  n. 73,  2005. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-33002005000300009&lng=en&nrm=iso

FIGUEIREDO, Virginia. Isto é um cachimbo. Kriterion.,  Belo Horizonte,  v. 46,  n. 112,  2005. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-512X2005000200024&lng=en&nrm=iso 



Escrito por Johannes às 14h08
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UM DISCURSO SOLITÁRIO POR EXCELÊNCIA

Ao afirmar que “o discurso amoroso é hoje em dia de uma extrema solidão”, Roland Barthes está limitando as possibilidades do sentimento amoroso - esse limite é dado por aquele que ama, é solitário por ser singular, é único. Alguns filosófos tiveram a pretensão de reduzir o sentimento amoroso à universalidade. Descartes chamou-o de conveniência; Schopenhauer chamou-o de instinto de preservação da espécie. Mas ambos apenas tentaram descrever o “amor”, tirando dos sujeitos um sentimento único e jogando para o plano desencantado dos conceitos, o filosófico. Esse plano é frio, é sem corpo, é definitivamente sem sujeito/pessoa - é assalto, pois rouba aquilo que de mais singular temos em nosso ser: o encanto de justificar a nossa própria vida na do outro, não por conveniência e nem por preservação, pois o amor é anti-político, como afirma Hannah Arendt. Quando não há uma definição com pretensão de Verdade, o terreno solitário do discurso amoroso se afirma, ele é singular, tem o “eu” como sujeito, tal qual a afirmação de Freud: “A única coisa que me faz sofrer é ver-me na impossibilidade de te provar o meu amor”; que além de afirmar a angústia diante da impossibilidade desse discurso se dar,  é ela própria um discurso amoroso, e portanto, solitário por excelência.

(Ao som de “Quando calienta el sol” de Trini Lopez)

 



Escrito por Guilherme às 00h35
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UMA PROVOCAÇÃO: FILOSOFIA, FRACASSO E CIÊNCIA


Ao proferir o famoso “Só sei que nada sei”, Sócrates tinha consigo a consciência dos limites de sua tarefa – a do filósofo. O filósofo contemporâneo tem consigo a loucura de ser um provocador que não encontra quem seja provocado, o mundo de hoje prefere a paz medíocre e não o conflito redentor. O que seria de Sócrates no nosso mundo, onde a ciência é a única detentora das “verdades absolutas?” Talvez ele fosse internado em um hospício, pois para a maioria das pessoas esse é o lugar ideal para se filosofar. A filosofia não cria bombas, nem cura doenças, no entanto, toda ciência opera com pressupostos filosóficos, e, portanto, a pedra fundamental de qualquer descoberta é a filosofia. E se dissermos que a filosofia é um trabalho em aberto? Que a possibilidade do conhecimento e de uma linguagem perfeita ainda é pensada? E que a maioria dos filósofos que tentaram pensar nisso fracassaram? Muitos chegaram ao “achei que sabia...”. Como pode a ciência, que tem a pretensão de chegar as verdades, ter como base de sustentação algo que certamente proferirá aquelas célebres palavras de Sócrates?

Ao som de "Debaser" do Pixies... o som!



Escrito por Guilherme às 14h06
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FRAGMENTOS DE UM FRACASSO FILOSÓFICO

“... A filosofia somente é mais do que um negócio onde ela se expõe ao fracasso total”. (Theodor Adorno – Dialética Negativa).

“Minhas proposições elucidam dessa maneira: quem me entende acaba por reconhece-las como contra-sensos, após ter escalado através delas – por elas – para além delas. (Deve, por assim dizer, jogar fora a escada após ter subido por ela). Deve sobrepujar essas proposições, e então verá o mundo corretamente. Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar”. (Ludwig Wittgenstein –Tractatus Lógico-Philosophicus).

“Só sei que nada sei”. (Sócrates).

Avante Filósofos, de mãos dadas com o fracasso! Pois para nós, ele é redentor...

(Abertura do Ato I de Tannhäuser - Richard Wagner)

Escrito por Guilherme às 00h21
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NIETZSCHE - HÁ 161 ANOS CHEGAVA AO MUNDO O FILOSÓFO DO MARTELO

No dia 15 de Outubro de 1844 por volta do meio-dia, nascia em Röcken, Saxônia, Friedrich Wilhelm Nietzsche, um filósofo que até hoje é desprezado por uns e amado por outros... as diversar interpretações de sua filosofia, corretas ou não, serviram de base teórica para o Nazismo na Alemanha e também para a extrema esquerda na França. Apesar de ser considerado por muitos um "filósofo pop" existe aspectos de sua filosofia que ainda são inexplicáveis e controversos, no entanto, o seu estilo e o espírito filosófico livre, torna o seu pensamento misterioso e ao mesmo tempo encantador.
Abaixo segue um aforismo muito interessante...


"Pode-se conjecturar que um espírito no qual o tipo do “espírito livre” deva algum dia tornar-se maduro e doce até a perfeição tenha tido o seu evento decisivo numa grande liberação, e que anteriormente parecesse ainda mais atado e para sempre acorrentado a seu canto e sua coluna. O que liga mais fortemente? Que laços são quase indissolúveis? Para homens de espécie mais alta e seleta serão os deveres: a reverência que é própria da juventude, a reserva e delicadeza frente ao que é digno e venerado desde muito, a gratidão pelo solo do qual vieram, pela mão que os guiou, pelo santuário onde aprenderam a adorar – precisamente os seus instantes mais altos os ligarão mais fortemente, os obrigarão da maneira mais duradoura. A grande liberação, para aqueles atados dessa forma, vem súbita como um tremor de terra: a jovem alma é sacudida, arrebatada, arrancada de um golpe – ela própria não entende o que se passa. Um ímpeto ou impulso a governa e domina: uma vontade, um anseio se agita, de ir adiante, aonde for a todo custo; uma veemente e perigosa curiosidade por um mundo indescoberto flameja e lhe inflama os sentidos. “Melhor morrer do que viver aqui” – é o que diz a voz e sedução imperiosa: e esse “aqui”, esse “em casa” é tudo o que ela amara até então! Um súbito horror e suspeita daquilo que amava, um clarão de desprezo pelo que chamava “dever”, um rebelde, arbitrário, vulcânico anseio de viagem, de exílio, afastamento, esfriamento, enregelamento, sobriedade, um ódio ao amor, talvez um gesto e olhar profanador para trás, para onde até então amava e adorava, talvez um rubor de vergonha pelo que acabava de fazer, e ao mesmo tempo uma alegria por fazê-lo, um ébrio, íntimo, alegre temor, no qual se revela uma vitória – uma vitória? Sobre o quê? Sobre quem? Enigmática, plena de questões, questionável, mas a primeira vitória: - tais coisas ruins e penosas pertencem à história da grande liberação. Ela é simultaneamente uma doença que pode destruir o homem, essa primeira erupção de vontade e força de autodeterminação, de determinação própria dos valores, essa vontade de livre vontade: e quanta doença não se exprime nos selvagens experimentos e excentricidades com que o liberado, o desprendido, procura demonstrar seu domínio sobre as coisas! Ele vagueia cruel, com avidez insaciada; o que ele captura, tem de pagar a perigosa tensão do seu orgulho; ele dilacera o que o atrai. Com riso maldoso ele revolve o que encontra encoberto, poupado por algum pudor: experimenta como se mostram as coisas, quando são reviradas. Há capricho e prazer no capricho, se ele dirige seu favor ao que até agora teve má reputação – se ele ronda, curioso e tentador, tudo o que é mais proibido. Por trás do seu agir e vagar – pois ele é inquieto, e anda sem fim como num deserto – se acha a interrogação de uma curiosidade crescentemente perigosa. “Não é possível revirar todos os valores? E o Bem e o Mal? E Deus apenas uma invenção e finura do Demônio? Seria tudo falso, afinal? E se todos somos enganados, por isso mesmo não somos também enganadores?” – tais pensamentos o conduzem e seduzem, sempre mais além, sempre mais à parte. A solidão o cerca e o abraça, sempre mais ameaçadora, asfixiante, opressiva, terrível deusa e mater saeva cupidinum [selvagem mãe das paixões] – mas quem sabe hoje o que é solidão?...". (Friedrich Nietzsche – Humano, Demasiado Humano)

(4º Ato da 9ª Sinfonia de Beethoven)



Escrito por Guilherme às 01h23
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O INDOMÁVEL

"Quem chegou, ainda que apenas em certa medida, à liberdade da razão, não pode sentir-se sobre a terra senão como andarilho - embora não como viajante em direção a um alvo último: pois este não há. Mas bem que ele quer ver e ter os olhos abertos para tudo o que propriamente se passa no mundo; por isso não pode prender seu coração com firmeza a nada de singular; tem de haver nele próprio algo de errante, que encontra sua alegria na mudança e na transitoriedade." (retirado de Humano, demasiado humano, aforismo 638).

Relendo mensagens de um amigo nietzscheano, mais uma vez me deparei com a redescoberta do ser. A relação daqueles que lidam diretamente com o conhecimento é dúbia, comparo com a tentativa de domar o indomável.

Sempre a espreita daquele que acredita ter 'domado' seu objeto, encontra-se a ignorância. Esta, infinita, constuma vingar-se quando seus limites são esquecidos, vinga-se com o abismo do ser.

É indescritível a angústia proveniente dessa relação. Quando acredita-se ter dominado o objeto, ter conhecido todas suas nuances, seus mais ínfimos detalhes, lá mostra-se ele livre, liberto das rédeas do conhecimento... rí de quem o definiu, este foi enganado, só pôde mapeá-lo...

Juntamente a isso está o profundo respeito e admiração por nossos mestres. É nosso objetivo refutá-los. Lembro-me de Sócrates - Górgias (457e) - que coloca a refutação em um patamar superior ao da aceitação. Nesse sentido, o respeito encontra-se na tradição, e a admiração, na tentativa, ela mesma, de alcançar o inalcançável, domar o indomável.



Escrito por Johannes às 20h12
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